Entenda o que é Fonética e Fonologia.
A Gramática normativa se divide em três partes: A Fonologia, a Morfologia e a Sintaxe. A Fonética e Fonologia são ramos da linguística que se concentram no estudo dos sons da fala. Apesar de estarem intimamente relacionadas, essas áreas possuem abordagens e objetivos distintos. Neste artigo, vamos explorar o que é Fonética e Fonologia, suas diferenças e como elas contribuem para a compreensão da linguagem.
Confira agora o poema a seguir:
Pequena canção – Cecília Meireles
Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?
.
Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua…
.
Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!
Este poema explora a sonoridade das palavras, evocando sensações visuais e auditivas e estimulando a sensibilidade e a imaginação. A repetição das palavras lua e tua nas três quadras do poema, além da sonoridade semelhante das palavras cantar e mar, ouvido e perdido, aqui e ti, evoca uma musicalidade que favorece a classificação dessa composição poética como canção.
Nota-se que, no par Lua e Tua, há grande aproximação gráfica e sonora, e a mudança de sentido fundamenta-se na alteração de apenas um elemento linguístico: na grafia, a alteração da letra L para T. Observe que se pode alterar o sentido dessas palavras substituindo o fonema consonantal inicial por outros, como em sua e nua, entre outras possibilidades.
O que é Fonologia?
A Fonologia é o estudo dos sons da fala do ponto de vista abstrato e funcional dentro de uma língua específica. Ela se concentra em como os sons funcionam dentro de um sistema linguístico, ou seja, como eles se organizam e se combinam para formar palavras e transmitir significado.
O que é Fonética?
A Fonética, por outro lado, é a ciência que estuda os sons da fala de maneira física. Ou seja, ela analisa como os sons são produzidos pelos órgãos da fala (como boca, língua, cordas vocais), como são transmitidos através do ar e como são percebidos pelos ouvintes. A Fonética se divide em três ramos principais:
- Fonética Articulatória: Estuda a produção dos sons da fala, focando nos órgãos envolvidos, como língua, lábios, dentes e cordas vocais.
- Fonética Acústica: Examina as propriedades físicas dos sons, como frequência, intensidade e duração, enquanto eles viajam pelo ar.
- Fonética Auditiva: Investiga como os sons da fala são percebidos e processados pelo sistema auditivo humano.
Os sons da fala são produzidos pela passagem da corrente do ar expiratória em contato com obstáculos do chamado “Aparelho Fonador“.
Na realidade, o corpo humano não dispõe de um aparelho destinado apenas à produção da fala: o que se denomina aparelho fonador é na realidade uma combinação de alguns órgãos do aparelho respiratório: Pulmões, brônquios e traqueia (responsáveis pela produção da corrente de ar expiratória), laringe (Onde se encontram as cordas vocais, responsáveis pela fonação, ou seja, pela produção da energia sonora), faringe e fossas nasais (responsáveis pela ressonância).
Além dos órgãos superiores como: Boca, língua, lábios, dentes… (Responsáveis pela articulação dos sons).
Diferença entre Fonética e Fonologia.
Uma das principais diferenças entre Fonética e Fonologia é o foco de estudo. Enquanto a Fonética se preocupa com a produção e as características físicas dos sons, a Fonologia se concentra no papel que esses sons desempenham dentro de um sistema linguístico. A Fonética trata dos sons em sua concretude, enquanto a Fonologia os analisa em termos abstratos e funcionais.
Fonema x Letra.
Entenda agora a diferença entre um fonema e as letras do alfabeto:
- Fonema: O fonema é a menor unidade sonora de uma língua que pode diferenciar o significado das palavras. Por exemplo, os fonemas /p/ e /b/ distinguem as palavras “pato” e “bato”. Embora sejam sons, os fonemas não são necessariamente os sons concretos que ouvimos, mas sim representações mentais que diferenciam significados na língua.
- Letra: A letra ou grafema, por outro lado, é o símbolo gráfico que usamos para representar fonemas na escrita. Em português, a letra “p” representa o fonema /p/, e a letra “b” representa o fonema /b/. Porém, uma única letra pode representar diferentes fonemas dependendo do contexto. Por exemplo, a letra “x” pode representar os fonemas /ks/ (como em “táxi”), /z/ (como em “exame”), /s/ (como em “exato”), ou /ʃ/ (som de ch – como em “xícara”).
Assim, a escrita das palavras nem sempre corresponde à pronúncia dos fonemas. Nas palavras flor, ouvido, perdido e precisa, do poema ao início deste guia, cada letra corresponde a um fonema, o que não ocorre, por exemplo, em palavras como arrumar (7 letras e 6 fonemas), samba (5 letras e 4 fonemas) e assim (5 letras e 3 fonemas).
Ortoépia e Prosódia.
Considerando a diversidade de pronúncias e escritas de uma língua, a gramática normativa busca regulamentar a pronúncia com um segmento chamado “Ortofonia” (orto = correto; fonia = som/pronúncia), que se divide em: Ortoépia/Ortoepia (o que diz respeito à pronúncia) e Prosódia (que se refere à acentuação, à entoação e ao ritmo da fala).
- Ortoépia ou Ortoepia: A ortoépia refere-se ao conjunto de regras que determinam a pronúncia correta dos sons das palavras em uma língua. Ela está relacionada com a articulação dos fonemas e a maneira como eles devem ser pronunciados de acordo com a norma culta da língua. A ortoépia é especialmente importante para evitar erros comuns de pronúncia que podem distorcer o som de uma palavra.
Por exemplo, na língua portuguesa, a pronúncia correta da palavra “substituir” deve respeitar a articulação de cada sílaba de forma clara, evitando a omissão de sons ou a modificação da estrutura fonética da palavra.
- Prosódia: A prosódia, por sua vez, está relacionada à entonação, ao ritmo e à acentuação correta das palavras e frases. Ela abrange aspectos como a posição da sílaba tônica (a sílaba que recebe maior ênfase em uma palavra), a melodia da fala (a variação tonal) e o ritmo (a cadência ou fluidez com que as palavras são pronunciadas).
Erros de prosódia podem alterar o significado de uma palavra ou frase, especialmente em línguas como o português, onde a posição da sílaba tônica pode diferenciar palavras com grafia semelhante, como em “avó” (a mãe dos pais) e “avo” (verbo “averbar”).
Classificação dos fonemas.
A classificação dos fonemas é essencial para entender como os sons da fala se organizam e funcionam nas línguas. No português, os fonemas são classificados em três categorias principais: vogais, consoantes e semivogais. Vamos detalhar cada uma dessas categorias.
Vogais.
As vogais são fonemas produzidos sem obstrução do fluxo de ar no trato vocal, resultando em sons que podem ser sustentados e que possuem uma sonoridade mais aberta. Elas são a base das sílabas e desempenham um papel crucial na estrutura das palavras.
As vogais da língua brasileira são:
- A: Seus fonemas são: /a/ – /ã/ – Exemplos: Casa, lá / Samba, canto, lã.
- E: Seus fonemas são: /ε/ – /e/ – /ẽ/ – Exemplos: Certo, café / Dedo, Pêssego / Tempo, Lenço.
- I: Seus fonemas são: /i/ – /ĩ/ – Exemplos: Livro, cítrico / Lindo, Fim.
- O: Seus fonemas são: /ↄ/ – /o/ – /õ/ – Exemplos: Corpos, pó / Corpo, avô / Tombo, conto.
- U: Seus fonemas são: /u/ – /ũ/ – Exemplos: Suco, baú / Unha, cumprir.
Consoantes.
Classificação das Consoantes.
As consoantes podem ser classificadas com base em três critérios principais:
- Modo de Articulação: Refere-se à maneira como o ar é obstruído durante a produção do som. Alguns modos incluem:
- Oclusivas: O ar é completamente bloqueado e liberado repentinamente, como em [p], [b], [t], [d].
- Fricativas: O ar passa por uma estreita passagem, causando fricção, como em [f], [v], [s], [z].
- Africadas: Combinação de oclusiva e fricativa, como em [tʃ] (som de “tch” em “tchau”).
- Nasais: O ar passa pelo nariz, como em [m], [n], [ɲ] (som de “nh” em “manha”).
- Laterais: O ar passa pelos lados da língua, como em [l].
- Vibrantes: Há uma rápida vibração dos órgãos articulatórios, como em [r] (vibrante simples) e [ʀ] (vibrante múltiplo, como no “r” de algumas variantes do português).
- Ponto de Articulação: Refere-se ao local no trato vocal onde a obstrução ocorre. Alguns pontos incluem:
- Bilabiais: Som produzido com ambos os lábios, como [p], [b], [m].
- Dentais: Som produzido com a língua contra os dentes, como [t], [d].
- Alveolares: Som produzido com a língua contra os alvéolos (a parte logo atrás dos dentes superiores), como [s], [z], [n], [l], [r].
- Palatais: Som produzido com a língua contra o palato (o céu da boca), como [ʃ] (som de “ch” em “chave”) e [ʒ] (som de “j” em “jato”).
- Velares: Som produzido com a parte posterior da língua contra o véu palatino, como [k], [g].
- Sonoridade: Refere-se à vibração das cordas vocais durante a produção do som:
- Sonoras: As cordas vocais vibram, como em [b], [d], [g].
- Surdas: As cordas vocais não vibram, como em [p], [t], [k].
Semivogais
As semivogais são sons que, apesar de terem características de vogais, não formam sílabas sozinhas e aparecem sempre junto com uma vogal em uma mesma sílaba, formando os chamados ditongos.
Características das Semivogais.
- Som e Função: As semivogais são sons como [j] e [w], que aparecem em palavras como “pai” [paj] e “mau” [maw]. Elas têm uma articulação semelhante às vogais [i] e [u], mas sua função na palavra é mais parecida com a de consoantes, uma vez que são menos proeminentes na sílaba.
- Posição na Síntese Silábica: As semivogais nunca formam uma sílaba por si só. Elas sempre acompanham uma vogal, ajudando a formar os ditongos (e tritongos) da língua, como em “quente” [kwẽtʃi] e “quando” [kwãdu].
Homônimos e Parônimos
O efeito de comicidade da charge anterior é decorrente do emprego das palavras cesta, sesta e sexta. Perceba que, apesar de terem significados e escritas diferentes, essas palavras possuem o mesmo som. A relação entre algumas palavras com fonemas ou escritas semelhantes se classifica através dos conceitos de homônimos e parônimos, como se observa a seguir:
Homônimos.
Homônimos são palavras que têm a mesma grafia (homógrafos) ou a mesma pronúncia (homófonos), mas possuem significados distintos. Eles podem ser classificados em três categorias principais:
- Homônimos homógrafos: Escrevem-se com a mesma sequência de letras, mas pronunciados de forma diferente.
Exemplos:- Almoço (substantivo, refeição) e almoço (verbo, 1ª pessoa do singular do presente do indicativo).
- Jogo (substantivo, entretenimento) e jogo (verbo, 1ª pessoa do singular do presente do indicativo).
- Homônimos homófonos: Escritos com letras diferentes, mas pronunciados exatamente da mesma forma.
Exemplos:- Cem (número 100) e sem (preposição que indica ausência).
- Concerto (apresentação musical) e conserto (reparo).
- Homônimos Perfeitos: Escritos e pronunciados exatamente da mesma forma, mas com significados diferentes.Exemplos:
- Banco (instituição financeira) e banco (assento).
- Manga (fruta) e manga (parte da roupa).
Parônimos
Parônimos são palavras que apresentam semelhança na grafia e/ou na pronúncia, mas têm significados diferentes. Eles frequentemente causam confusões devido à proximidade de suas formas, mas não são idênticos como os homônimos.
- Comprimento (extensão: “O comprimento da mesa”) e Cumprimento (saudação: “O cumprimento do contrato”).
- Descrição (ato de descrever: “A descrição do cenário”) e Discrição (qualidade de ser discreto: “A descrição é uma virtude”).
- Eminente (notável: “Um cientista eminente”) e Iminente (que está prestes a acontecer: “Perigo iminente”).
Dicas para evitar Confusões.
- Contexto: Sempre considere o contexto em que a palavra está sendo usada. O significado geralmente pode ser inferido pela frase em que a palavra aparece.
- Consulta ao Dicionário: Se houver dúvida sobre o uso ou significado de uma palavra, consultar um dicionário pode esclarecer.
- Leitura Atenta: A prática da leitura atenta e diversificada ajuda a internalizar o uso correto das palavras, reduzindo erros ao falar ou escrever.
Conclusão.
A fonética e a fonologia são disciplinas fundamentais no estudo da linguagem, oferecendo insights valiosos sobre a produção, a transmissão e a percepção dos sons da fala. Com aplicações práticas em áreas como ensino de línguas, terapia da fala e tecnologia, a compreensão dessas áreas é essencial para uma ampla gama de profissões e pesquisas.